5 Mentiras Que Me Contaram Sobre o Mercado Quando Comecei a Fotografar

1 - Você precisa atualizar 500px, Flickr, site, blog, redes sociais com frequencia, pra mostrar o seu trabalho.

Só se você quiser tapinha nas costas de gente que só fez um comentário pra ter um comentário de volta em suas fotos. Qual é o sentido de fotógrafo querendo confete e elogio de outros fotógrafos? Portfolio se mostra em contato direto com cliente.

2 - O mercado de fotografia está saturado. 

O pessoal anda comprando muita câmera por aí e postando muita foto em rede social, mas isso não é o mercado, ok? Com frequência ouço cliente reclamando da dificuldade de se encontrar fotógrafos em que se possa confiar. Tá cheio de fotógrafo querendo ganhar muito e trabalhar pouco pra poder jogar seu videogame em paz. Quem quer trabalho mesmo encontra um caminho e o mercado abraça.

3 - Quanto mais cursos, palestras, eventos e workshops você fizer, Mais garantida é sua entrada no mercado.

Você pode fazer anos de cursos e workshops de fotografia e ainda vai estar fora do mercado se não mostrar seu trabalho para a pessoa certa e, principalmente, se não tiver maturidade, disposição e inteligência emocional para lidar com pessoas e trabalhar duro com gente que exige qualidade.

4 - Os fotógrafos famosos cobram caro.

Quem cobra muito caro tá fora do mercado, exceto casos muito específicos (e provavelmente não é o caso desse cara famoso do twitter que você pensou). Quem faz grana com foto, faz porque trabalha muito mesmo. E, convenhamos, existe uma forte possibilidade de que o seu conceito de preço justo é que esteja torto.

5 - Sua vida vai ser melhor quando você viver de fotografia.

Sua vida só vai ser melhor quando você quiser, e isso não tem nada a ver com o que você faz para colocar comida na mesa. Tem a ver com ser satisfeito com o que se tem, não querer viver a vida de outra pessoa, não achar que precisa de certa coisa só porque um conhecido tem, e você não pode ficar sem, né? Já parou pra pensar que aquele fotógrafo de quem você tem inveja já tá ralou um bocado pra chegar onde chegou? Vou te contar um segredo: você não vai fazer sempre o tipo de foto que você gosta. Tem que lidar com cliente, tem que resolver pepino, tem que pagar imposto, fazer contabilidade, tem que se automotivar pra vender, tem que mostrar portfolio e ouvir muito “não”, negociar… Não é só apertar o botão. Se você quer que a fotografia seja romântica e poética, deixa como hobby se trabalhe como corretor imobiliário. 

Pé na tábua? Não, obrigado.

A gente tem uma relação tão estranha com o tempo. Hoje, tudo é pra ontem. A gente quer só o que é bom, rápido e, sempre que possível, de graça. Todo mês novos eletrônicos chegam para transformar os da semana passada "coisa velha". E a gente vai se acostumando a esse nosso tempo maluco, ou melhor, a essa nossa relação maluca com o tempo.

Vamos supor que algum cliente te proponha um único trabalho que duraria 10 anos (pense bem, se você tem 30 anos, vai terminar o projeto aos 40). Você consegue se imaginar aceitando um trabalho desses? Eu não estou falando de marketing. Não é construir uma relação com um cliente que passa a confiar em você e te passar trabalhos ao longo de 10 anos, nem de um contrato que te garanta trabalho todos os dias por 10 anos. Não. Falo de um único trabalho, um único projeto. Eu não aceitaria, provavelmente. Tenho certeza de que a grande maioria de vocês aí do outro lado também não. Sejamos honestos, na maior parte das vezes a gente quer apertar um botão mágico e se ver livre do cliente o mais rápido possível. Não precisa ter medo de assumir, porque do outro lado os clientes também querem que a gente entregue exatamente do jeito que eles tem concebido na imaginação no prazo mais curto que um ser humano (não) consegue entregar.

Retábulo de Gent aberto - A Adoração do Cordeiro Místico

Jan Van Eyck, mestre dos detalhes quase imperceptíveis, é um artista do renascimento dos países do norte da Europa (mais especificamente, da região onde hoje é a Bélgica). Só com uma lente de aumento era possível enxergar certos detalhes em seus quadros. Ele vivia no sec. XV, um tempo em que o Instagram não existia e tudo era mais devagar. Uma de suas maiores obras levou cerca de 10 anos para ser finalizada. É conhecida como "A Adoração do Cordeiro Místico", um retábulo que se encontra hoje exposto na igreja de São Bavo, na cidade de Gent, na Bélgica. Para citar apenas algumas curiosidades:

Detalhe do coral de anjos na parte superior esquerda

- Um botânico é capaz de identificar mais de 40 espécies de plantas diferentes.

- Todos os rostos são únicos. O próprio Van Eyck aparece no meio do povo, inclusive.

- É possível contar fios de cabelo.

- Todos os personagens reais são representadas exatamente como são, inclusive rugas e imperfeições da pele.

Os detalhes são incontáveis. Existem livros dedicados exclusivamente à análise dessa pintura. Agora tente se imaginar começando a pintar algo desse tipo. Imagine o primeiro minuto desses 10 anos. Deve ter sido assustador. Uma área branca gigantesca diante de você e a responsabilidade de pintar algo memorável caindo sobre os seus ombros. Mas para a maioria de nós aqui em 2013 um trabalho tão personalizado, tão cheio de detalhes, soa tão fora da realidade que é difícil imaginar. Assim a gente vai vivendo: rápido e padronizado, cada vez mais colocando relações cheias de segundas intenções antes das experiências pessoais. A gente prefere a praticidade. A gente faz "networking". Tempo, é melhor gastar com alguma coisa que vai trazer algum retorno financeiro (ou prestígio profissional) do que perder com bobagens. E nessa maluquice toda a gente deixa de ter algumas vivências interessantes.

Se posso deixar uma sugestão, procure uma outra relação com o tempo, mais lenta e íntima. Deixe o microondas de lado e cozinhe no fogão. Faça menos coisas. Fotografe com filme. Tire pelo menos um dia na sua semana para desligar o celular, andar devagar, e escrever em um caderno (daqueles com folhas de papel, lembra?). Se você mora em uma cidade grande, ande pelo Centro, olhe para cima e descubra a história de pelo menos um prédio. Não precisa abandonar a vida corrida deste século e ir morar em uma fazenda de tomates, mas faça diferente de vez em quando, como um exercício. Principalmente: não tenha pressa com a sua fotografia. Fotografe mais, mostre menos, imprima as que você mais gosta. Não fique preocupado em se tornar o novo Bresson da noite para o dia. O mundo nem precisa de um novo Bresson. Dê um passo de cada vez. 

Tico, Teco, e a criatividade que todo mundo tem

Dentro da nossa cabeça existe uma fábrica com dois caras que foram feitos para trabalhar em equipe. Cada um tem um papel bem definido na produção e organização das ideias que a gente tem todo santo dia. Não ter consciência da função que cada um desenvolve causa uma bagunça danada no processo. Não sei você, mas eu já deixei muitas ideias presas no imaginário, morrendo de medo de trazê-las para a realidade. A realidade, a gente sabe, muitas vezes é dura, imprevisível e exigente. Uma droga. Entender o papel desses dois caras pode ajudar a gente a perder o medo de realizar.

Tico é o cara que produz as ideias. Todos os dias ele junta tudo o que você já viu, ouviu, tocou e sentiu, todas as suas percepções, e o produto disso é uma nova ideia. Tico é um matemático, trabalha com infinitas combinações de referências o dia inteiro, até mesmo quando a gente está dormindo. É o cara do fundo do escritório, que mexe nas caixas do almoxarifado buscando referências antigas para combinar com as recentes, montando quebracabeças de imagens, histórias, cheiros, sons, e tudo mais.

O outro cara, o Teco, é o controle de qualidade. Ele analisa tudo o que o Tico produziu e, usando seu excelente senso estético, edita todo esse material para chegar a um produto final mais refinado. Teco é um artista. Transforma o material bruto do Tico em coisas interessantíssimas. Mas o Teco costuma ser um imbecil egocêntrico que acha que o mundo gira ao redor de seu umbigo. Pior: ele acha que é chefe do Tico. Está sempre na linha de produção tentando aplicar suas regras, eliminando várias combinações de referências antes mesmo que o Tico termine de montar as peças.

Cabe ao chefe (eu e você) do Tico e do Teco, colocar ordem na casa. Quando o Tico é livre para produzir, Teco tem mais material para trabalhar. O resultado dessa divisão de funções definida é uma produção mais frequente e cada vez mais consistente. Eu tenho percebido produtos mais interessantes saindo da minha fábrica desde que descobri, há pouco tempo, que colocar o Teco em seu lugar dá resultado. Quando a gente deixa o Tico produzir, muita porcaria aparece. Mas, no meio disso tudo, surgem também aquelas coisas que fazem a gente dar um sorriso satisfeito. Agora eu deixo Tico fotografar, desenhar, cantar, construir instrumentos musicais, desconstruir câmeras fotográficas, escrever histórias das mais loucas, dar vida a personagens, inventar pratos na cozinha e criar fórmulas de refrigerantes que não existem, sem que o Teco dê um pio sequer na produção. Quando o Teco chega no escritório para trabalhar, ele encontra uma lista enorme de produtos para editar, definir prioridades, arquivar o que for inviável e levar adiante o que for bom.

Sugiro que você tente fazer o exercício de deixar o seu Tico trabalhar com mais liberdade. Comece a escrever uma história, ou desenhar um barquinho no mar. Mas não deixe o Teco se meter. Não pare de produzir porque achou ruim, continue no próximo parágrafo. Primeiro você produz sem medo, sem preconceito, sem trava. Deixa para decidir depois se o que produziu é bom ou ruim. Não importa se você é fotógrafo, designer, ou advogado da vara trabalhista. Escreva, desenhe, componha, fotografe, crie. O primeiro produto é sempre bruto e meio estranho mesmo, mas não se deixe intimidar. E lembre-se: Tico e Teco trabalham, em primeiro lugar, para agradar a você. Produza para você ficar satisfeito. Nem tudo o que você faz precisa ir parar na internet para todo mundo ver.


O real valor de uma foto

O ano vai acabando e a gente vai fazendo aquele inevitável balanço geral. Pensando em como foi o meu ano, me deparei com uma história aqui no blog que merece ser publicada novamente, acredito. Até esse dia eu pensava que uma foto valiosa era aquela publicada em um veículo de imprensa importante, ou impressa em um papel alemão e pendurada na parede de uma galeria de arte com uma moldura bem cara. Jamais imaginaria que as fotos mais valiosas que eu faria seriam vistas por meia dúzia de pessoas, nunca seriam veiculadas em revistas de grande circulação, e eu não receberia um centavo por elas.

Fui convidado pelo Projeto Retrato Social, de João Pessoa - PB, para ministrar uma oficina para os voluntários e acompanhar uma de suas ações. O projeto usa a fotografia como um catalisador de transformação social, levando cursos de fotografia para comunidades carentes e realizando algumas ações para melhoria da autoestima dessas pessoas.

Fomos fotografar as meninas acolhidas em uma casa de recuperação de menores infratores. Nunca tinha participado de algo desse tipo e confesso que estava um pouco nervoso. As meninas foram liberadas para nos encontrar no pátio e começamos a conversar com elas, buscando uma conexão, tentando fazer com que elas ficassem mais à vontade (na verdade, elas é que tiveram que me deixar à vontade). Era impressionante a reação de algumas quando eu dizia que eu vivia de tirar fotos. Era como se aquilo fosse inacreditável, impossível. Elas se interessavam, perguntavam se qualquer um poderia se tornar fotógrafo. No fundo, queriam saber se essa poderia ser uma opção de viver dignamente quando saíssem dali. Elas só queriam uma alternativa com uma pitadinha de esperança.

Começamos a fotografar as meninas já maquiadas e os sorrisos eram mais do que espontâneos. Obviamente elas não tinham câmeras na casa. Muitas ali nunca tiveram um retrato impresso, nunca tinham se visto daquela maneira. Ficavam alguns minutos olhando aquele pedaço de papel, com um sorriso no rosto, e depois vinham contar pra quem enviariam as fotos. Mães, irmãos, maridos, filhos, cada uma tinha uma pessoa em mente. Foi aí que eu percebi que essas eram as fotos mais valiosas que eu poderia fazer. Simples, sem grandes produções, sem orçamentos espaciais, sem conceitos profundos e filosóficos, impressas em papel fotográfico barato.

Eu sei que soa um pouco infantil, mas parece mesmo que uma foto pode trazer algum tipo de consciência de ser, uma prova de existência, alguma coisa do tipo. Para aquelas meninas, aquele dia não foi um dia qualquer. Foi o dia em que elas foram fotografadas. Foi o dia em que elas conseguiram uma evidência material de quem eram, e poderiam provar para suas famílias (e principalmente para si mesmas) que ainda existiam e que, apesar daquela condição, consequência de más escolhas, ainda eram só meninas.

Qualquer um compra uma câmera e se acha fotógrafo. Que bom! Recomendo.

Meu tio bancáro e eu

Meu tio bancáro e eu

Quem me ensinou a fotografar foi um bancário que se achava fotógrafo. Seu assunto era basicamente a própria família, mas até fotografava alguns casamentos pra levantar uma graninha extra. Ele me levava para fotografar pela cidade e eu me lembro que a gente anotava as configurações da câmera para analisar depois. Passávamos horas vendo fotos em um antigo projetor de slides, daqueles de carrossel, que faziam barulho passando de uma foto pra outra. Com ele, tive meu primeiro contato com uma SLR e comecei a aprender a técnica. Era um dos tios mais divertidos que eu tinha. Fazia mágica, bolas de sabão gigantescas, organizava suas coisas por dia de semana em gavetas com nomes de agente secreto, contava histórias fantásticas, e tirava fotos.

Nicolas Born, o engenheiro de TI, e as montanhas dos Doze Apótolos, na África do Sul.

Nicolas Born, o engenheiro de TI, e as montanhas dos Doze Apótolos, na África do Sul.

Acabei abandonando a velha Zenit que ele me deu por motivos que nem eu mesmo sei dizer. Por anos nem câmera de celular eu usei. Simplesmente abandonei a prática fotográfica. Até que em uma viagem fiz algumas fotos com uma DSLR de um engenheiro de TI que se achava fotógrafo. Era como se meu tio estivesse ali comigo. Mexer nos controles de obturador e diafragma, fazer o foco, o barulho do clique... Voltei dessa viagem decidido a tirar a poeira da minha velha russa. E foi o que eu fiz.

Pouco tempo depois, meu tio faleceu e deixou uma pequena quantia em dinheiro. Comprar minha primeira DSLR seria o destino perfeito para essa herança, como se fosse uma homenagem. Nessa época as DSLR eram muito caras no Brasil, e todas estavam bem fora do meu orçamento. Foi quando apareceu um amigo economista que se achava fotógrafo que estava prestes a fazer uma viagem para o exterior. Ele me propôs que eu comprasse sua câmera pelo preço de uma nova nos Estados Unidos. A diferença de preço era absurda e, agora, já cabia no orçamento. Consegui minha primeira DSLR.

Agora eu era um perdido na vida que me achava fotógrafo. Eu não conseguia parar em nenhum emprego. Tinha sérios problemas com autoridade e nada era bom o suficiente pra mim. Mas, parece que fotografar é meio terapeutico. Estou longe de ser um psicólogo (que se acha fotógrafo), mas eu atribuo várias mudanças positivas na minha vida à prática da fotografia. Consegui parar por mais de seis meses em um emprego e até fui promovido duas vezes (depois acabei chutando tudo pro alto para ser fotógrafo em tempo integral, mas essa é uma outra história)! Minha autoestima era outra. Aliás, minha autoestima passou a existir. Um mundo de possibilidades se abria na minha frente. Desde então fui a lugares e conheci pessoas que eu nunca imaginei conhecer.

Eu não quero soar como um desses pregadores ex-satanistas que agora encontrou a Jesus. O que eu quero dizer com isso tudo é: gente que se achava fotógrafo foi de uma importância inexplicável para que eu começasse a fotografar, e fotografar foi de uma importância inexplicável para que eu tomasse um rumo na vida. É tanto fotógrafo reclamando hoje em dia: "Agora todo mundo tem uma câmera e se acha fotógrafo!", "Qualquer pessoa que tem Instagram no celular sai por aí fotografando!", entre outras ladainhas que a gente já está cansado de ouvir/ler por aí. Eu gostaria que todo mundo pudesse ter uma câmera. Uma câmera não é só um aparelho eletrônico, ou instrumento de trabalho. Uma câmera é uma terapia. Uma câmera é um mediador entre uma pessoa e um mundo de detalhes, descobertas, observações, relacionamentos, confiança e autoestima. Eu gostaria que todo mundo pudesse ter a oportunidade de se achar fotógrafo.

O tal do cinema

Há alguns anos eu assistia filmes sem prestar muita atenção nos detalhes. Gostava dos filmes sem saber muito bem o porque. Quando comecei a estudar fotografia os filmes já passaram a ter outro sentido. Prestava atenção na luz, nos enquadramentos, na montagem. Aquele plano fechado, com aquela luz, me levava a pensar em determinada coisa. Percebi que um filme não era tão simples.

Então, me mudei pra São Paulo e acabei indo morar com gente do teatro. Eles me ensinaram a história e as ideias de vários diretores importantes que o teclado do meu computador não tem consoantes e acentos suficientes pra escrever seus nomes. Construção de personagem, exercícios biomecânicos, jogo de cena, e todo o processo criativo dos atores e diretores. Não conseguia mais assistir nem uma comédia romântica sequer sem pensar que aquela tremidinha de mão imperceptível foi parte do processo criativo do ator. Também passei a perceber quando ela não existe e fiquei mais exigente. Ver filme avançou mais um nível.

Nos últimos dias andei mergulhado no universo das trilhas sonoras graças ao maestro e compositor Alexandre Guerra. Vocês já pararam pra pensar que a simples decisão de onde e como a música entra na cena pode induzir a gente a tirar certas conclusões a respeito do desenrolar da história? Modulações, pausas, arranjos, quais instrumentos entram, dinâmica, enfim, tudo levando a gente pela mão até onde o diretor quiser. Ver um filme depois disso vai ser uma experiência quase espiritual, e "trilha boa" não significa mais um CD com músicas famosas que eu gosto.

Agora falta produção, direção de arte, figurino, roteiro... Cara, se você é do cinema, te admiro. É, como minha vó dizia, "uma profissão muito bonita" (mas ela se referia ao funcionalismo público, ou ao serviço militar).