O Danado do Fotômetro

A pergunta de hoje foi feita pelo Rubens Martins:

Como medir a luz corretamente? Para que o branco seja um branco de verdade e negro seja negro. Expor a +2 ou -2... em que situações por exemplo; uma pessoa de pele escura e outra de pele clara, em interiores com pouca luz, etc...

Essa é uma dúvida muito comum e a resposta é relativamente simples. Como medir a luz corretamente? Com bom senso. A gente precisa, antes de tudo, olhar para o fotômetro como um instrumento de medida que nos mostra um referencial, e não como um deus impiedoso que exige obediência cega. Imagine uma balança. Quando nos pesamos a balança nos responde com um número que é quanto nosso corpo pesa naquele momento. Isso não quer dizer que esse é nosso peso ideal. A balança nos dá uma referência e à partir dessa informação a gente pode decidir se pode comer aquele cheese bacon com fritas e refrigerante, ou se seria melhor pedir uma salada com suquinho de lichia sem açúcar (blergh).

O fotômetro funciona de forma parecida. Como o próprio nome sugere, é um instrumento que mede a luz. Assim como a balança, ele nos responde com uma informação que deve ser apenas um referencial, um ponto de partida para tomar uma decisão. O que a gente deve considerar é para onde esse referencial aponta. O fotômetro quer sempre nos levar a um resultado que seja mais próximo do famoso cinza médio. Então, com o fotômetro zerado, não importa se você está fotografando uma parede branca ou um tecido preto, a foto será o mais próximo possível do cinza.

Aí entra o seu bom senso. Se você sabe que em uma situação com muito branco, ou cores claras, o fotômetro vai indicar que você deve deixar menos luz entrar (para a situação ficar mais próxima do cinza), você é quem precisa identificar a necessidade de "desobedecer" o fotômetro e deixar entrar mais luz. Quanto a mais? Depende da situação, das cores, do modo de medição, etc.

Eu poderia escrever vários parágrafos sobre o assunto, mas qualquer coisa seria redundante depois de uma série de nove artigos que o Armando Vernaglia escreveu para o site Fotografia DG. É bem legal e cobre vários assuntos sobre fotometria. Então deixo você com o link para o primeiro artigo da série. Melhor que copiar texto dos outros como a gente vê por aí de vez em quando, não é verdade?

Album Imaginário das Viagens Improváveis

A pergunta de hoje é da Bruna Silveira, que não é fotógrafa. É bacana poder falar um pouco dessas outras coisas, e não só de diafragma, ISO e velocidade do obturador. Estou torcendo por mais perguntas como essa!

Uma pergunta feita por uma pessoa que não entende nada da técnica mas é fascinada por arte de qualquer forma. Qual a ideia que você pretende transmitir com o ensaio "Álbum Imaginário das Viagens Improváveis"?

Eu nunca tinha mostrado esses outros ensaios na internet. Não achava que valesse a pena. A maior parte das pessoas tem referências diferentes, acaba gostando mais da foto bonita, nítida, técnica. Claro, esse é o tipo de foto que atinge um público maior e paga o aluguel no fim do mês, então estou sempre fazendo (tenho que garantir o miojo das crianças). Mas há algum tempo eu desenvolvo outras coisas em que a preocupação com foco, nitidez e exposição não é tanta. Aliás, um desses ensaios é baseado exatamente em falhas técnicas. O mais importante nesses casos é levantar uma questão, ou contar uma história.

No "Álbum Imaginário das Viagens Improváveis" eu viajo para diversos lugares do mundo, geralmente lugares não comuns, como Ilhas Antigua e Barbuda, Groelândia, Tonga, e até a pequena ilha entre Vladivostok e Alasca (lembram do tabuleiro de War?). Em cada um desses lugares eu conheço personagens interessantes e fatos sobre aquele lugar. O trabalho, na verdade, vai além das fotos. O mais importante são as histórias mesmo. Por isso a escolha de fotos desfocadas, cheias de ruído e muitas vezes subexpostas. Quem vê, precisa ouvir e acreditar nas histórias (que são, sim, reais).

Nenhuma dessas fotos tem manipulação digital além de um tratamento básico de contraste e saturação. Elas foram capturadas já da forma como você vê. Eu não queria que a técnica usada na captura acabe se tornando mais importante, então vou deixar pra lá, mas posso dizer que tem até papel higiênico no processo. A motivação do ensaio era tentar criar nessas histórias de viagens alguns elementos míticos básicos, como um exercício a partir do meu contato com as ideias do Joseph Campbell. Me obriga a pesquisar e aprender muito sobre lugares, pessoas, culturas, religiões e até meteorologia (as histórias da Antártida deram trabalho). Hoje, ainda existem mais imagens que histórias escritas, mas venho aos poucos trabalhando para chegar lá. Um dia, quem sabe não publico alguma coisa? Por enquanto, tudo pra mim é um grande exercício de criação que me dá muito prazer.

Esse ensaio rendeu uma participação em uma exposição coletiva durante a Semana Hercule Florence de Fotografia, em Campinas, com direito a um lendário (pelo menos pra mim) show do André Abujamra baseado nas histórias de algumas fotos. Cada vez mais gente doida de imaginação fértil tem se identificado de alguma forma com esse trabalho, então já fico feliz. Não precisa de likes no Facebook.

pergunte@leoneves.net

Como calcular a abertura do diafragma...

Dando início a essa seção de perguntas e respostas aqui no blog, o Mateus Marx mandou um email para pergunte@leoneves.net com uma pergunta que não é fácil de responder. Principalmente porque não existe uma resposta precisa. Vamos a ela:

"Qual é exatamente a abertura do diafragma correta quando usamos um flash Canon 580EX II, de número guia 58, com um octa de 150cm, em carga máxima (1/1) a 1m de distância do modelo para um retrato?"

Em primeiro lugar, não existe uma abertura "correta". Tudo vai depender de uma série de fatores, inclusive o gosto pessoal. Iluminação é igual carne (que os veganos me perdoem pelo exemplo). Tem gente que gosta de carne bem passada. Outras pessoas preferem ao ponto. E ainda tem aqueles que querem um filé suculento bem vermelho. Na fotografia acontece o mesmo. Eu tenho a tendência de fazer imagens com mais contraste, às vezes até um pouco subexpostas. Outros fotógrafos vão preferir superexpor a foto e posicionar a luz de forma diferente. Então, a primeira coisa é encontrar o caminho que você se sente confortável e, mais importante, fugir das verdades absolutas. Não acredite em fotógrafo dono da verdade que quer impor o seu jeito de fazer as coisas. Toda regra nada mais é que um guia, uma referência. Não é dogma religioso.

Uma vez que você já sabe o que quer para o seu trabalho, vamos aos cálculos do diafragma. O número guia está diretamente relacionado à potência usada e ao zoom da cabeça, de acordo com uma tabela que está no manual de instruções de cada flash e geralmente considera ISO 100. Essa tabela é apenas um referencial, um ponto de partida para decidirmos o que vamos fazer com a luz. No caso do Canon 580RX II, a tabela do número guia é a seguinte:

Perceba que 58 é o número (em metros) referente a carga máxima (1/1) e zoom 105mm (o número que aparece logo depois, 190.3, é para o cálculo em pés, pode deixar pra lá). Resumindo a história (que é melhor contada aqui), significa que para usar o flash Canon 580EX II a 1m de distância, carga máxima (1/1), zoom 105mm sem nenhum acessório, o valor do diafragma será f58. Esse é o seu ponto de partida para essas condições. Com um octa desse tamanho todo, com certeza você está perdendo bastante luz, e não é possível que eu diga exatamente quanto sem usar esse acessório. Isso vai depender do material do octa, de quantas camadas ele tem, etc. Você precisa fazer testes com ele para descobrir o quanto de luz você perde. Vamos supor que a perda seja de 3 pontos (tudo especulação, hein!). Perceba que, pela tabela, se usarmos o flash sem acessório nos mesmos 105mm de zoom diminuindo 3 pontos na carga (1/8), chegamos ao número guia 20.5. Isso significa que, com um acessório que tira 3 pontos de luz, vou usar como referência a linha da carga 1/8 na tabela, mesmo com o flash em 1/1 (lembre-se que estamos fazendo tudo com menos 3 pontos de luz).

Como você está usando seu flash com um acessório grande, sugiro que você não concentre o zoom em 105mm. Dá uma olhada lá na tabela mais uma vez. Para 24mm o número guia na linha 1/8 é 9.9. Isso significa que seu ponto de partida nesse caso será f9.9 (que não existe, então a gente arredonda para f10) para ISO 100, carga máxima (1/1), e 1m de distância. Faça uma foto usando f10 e veja se te agrada. Se não, não se desespere! Como eu disse, a tabela é só um ponto de partida. A partir dessa foto é que você vai começar a fazer a sua luz, e não a luz que os engenheiros da Canon te mandaram fazer.

Um aparelhinho mágico que elimina todo esse trabalho é o fotômetro. Ele já vai te dizer o diafragma que você deve usar como ponto de partida, e você pode até calibrar o fotômetro para o seu gosto (sub ou superexpondo a foto).

Se eu posso deixar algum conselho depois de todo esse texto enorme, o conselho é: não se prenda ao que diz esse texto enorme. Pensando em mercado, é muito importante conhecer técnicas, regras e macetes. Mas eu venho preferindo tentar superar toda essa neura com a técnica e meter a mão na massa para fazer, errar e descobrir caminhos diferentes. Se a gente nunca passar dessa fase, corre o risco de acabar a vida discutindo o trabalho dos outros no Facebook em vez de fazer o que curte.

Perguntas sobre a fotografia, a vida, o universo e tudo mais

Se você tem dúvida sobre alguma foto que apareceu aqui no blog, ou sobre alguma técnica, ou mesmo sobre as coisas ocultas da vida, mande sua pergunta para o email: pergunte@leoneves.net e toda semana eu vou postar aqui no blog, na categoria "das perguntas" as perguntas mais legais e a minha resposta. Quem sabe a gente não pode ter algumas discussões interessantes por aqui? É só mandar sua pergunta por email!