Então você acha que flash é muito artificial?

Já ouvi muita gente dizer que não gosta de usar flash porque prefere fotografar o que está vendo, fazer fotos que parecem naturais. Eu poderia escrever um longo texto explicando sobre latitude de exposição mas já tem muita coisa escrita aqui. Em resumo, sua câmera enxerga o mundo com muito mais contraste que você. Então, na verdade, dificilmente você vai conseguir uma foto parecida com o que você está vendo.

Pode parecer baboseira, mas o flash pode te ajudar a conseguir um resultado mais natural, sim. Perceba como as áreas escuras da foto estão sumindo, muito escuras.

Essa foto foi feita sem flash, só com a luz que entrava pela janela, e não está nem perto de se parecer com a cena que se via na hora. Na foto, tudo parece muito mais contrastado.

Usando a luz natural como luz principal, a gente pode adicionar o flash bem fraquinho, só para trazer essas  áreas escuras de volta.

Pronto. Agora eu tenho uma foto com menos contraste. Isso não quer dizer que a primeira foto não presta. Não existe essa de certo e errado, você já sabe disso. O Kenji Arimura, mais acostumado a estar atrás da câmera, abriu as portas de seu quarto tão arrumadinho (aham, tá...) pra me ajudar a dar esse exemplo. Valeu, Kenji!

Aí vai o esquema da foto:

Sincronismo em alta velocidade (High Sync / Auto FP)

No último sábado rolou o primeiro curso pelo projeto Oficinaria, "O Danado do Flash TTL", no Rio. Também foi a primeira oficina que eu fiz falando exclusivamente do modo TTL. A galera viu que é possível, sim, confiar na leitura do TTL quando você sabe o que está fazendo. Eu já falei sobre o TTL aqui no blog, então sugiro que você leia esse post se não sabe muito bem do que se trata.

O que a gente vai dar uma olhada aqui é o sincronismo em alta velocidade, o "high sync" (Canon), ou "auto FP" (Nikon). Nossas câmeras tem uma limitação mecânica que chamamos de velocidade de sincronismo. É o menor tempo que a câmera consegue fazer o sensor estar completamente exposto para receber a luz do flash. Se passarmos dessa velocidade (geralmente 1/250, mas depende do modelo da câmera) a segunda cortina começa a fechar antes que a primeira se abra completamente. O resultado é uma tarja preta na foto, causada pela segunda cortina começando a fechar e bloqueando parte do sensor. Difícil de entender? Talvez um desenho ajude:

Quando acionamos o sincornismo em alta velocidade, o flash divide sua carga em vários disparos muito rápidos, imperceptíveis. Parece que é só um disparo do flash, mas, na verdade, são muitos (lembre-se que estamos falando de uma foto feita a menos de 1/250 segundo!).

Qual a aplicação prática disso? Vamos ver algumas fotos de exemplo:

Atrás do amigo Alexandre Ferreira (hipster do dia) tem uma janela iluminando uma parte da lateral do rosto dele. Eu queria aproveitar um pouco dessa luz, mas não muito. O problema é que além de querer usar só um pouco dessa luz ambiente, eu queria também uma profundidade de campo bem curta, para desfocar a orelha e fundo, então usei f1.8, o que aumentou a influência da luz ambiente:

A câmera já estava no menor ISO nativo (200) e na velocidade de sincronismo (1/200). A única opção para diminuir a luz da janela seria aumentar essa velocidade, o que tornaria impossível iluminar a foto com flash, se não existisse o sincronismo em alta velocidade.

Depois de acionar o Auto FP, foi possível aumentar a velocidade para 1/640, o que permitiu que eu conseguisse a mesma luz sutil na lateral e ainda assim iluminar a foto com o flash, sem aquela tarja preta causada pela segunda cortina fechando.

A melhor parte dessa oficina foi o motivo. Toda a renda foi direto para a conta de um projeto de construção de uma biblioteca em uma comunidade da Zona Sul de São Paulo. Foi o primeiro passo dado em direção à meta de 30 mil reais que a Oficinaria lançou no início do mês. Agradeço muito ao pessoal da Comuna, que cedeu o espaço, e à equipe da emotion.me, que também doou um pouco do seu tempo e foi posar  para algumas fotos.

Como equilibrar (ou não) a luz ambiente e o flash

Ontem foi o último dia da oficina de flash avançado no IIF, em São Paulo. Além dos temidos (e já expostos aqui no blog) número guia e lei do inverso do quadrado da distância, um dos assuntos dessa oficina foi a relação entre a luz disponível no ambiente (natural ou não) e o flash.

Esse era um dos ambientes da locação para a parte prática da oficina:

O primeiro passo é fazer a fotometria do ambiente. Só pra ter uma ideia, zerando o fotômetro da câmera, no modo de medição matricial, a gente encontrou o seguinte:

Eu queria conseguir uma imagem com mais contraste, então resolvi subexpor a foto:

Agora é a hora de colocar todo aquele blá blá blá de cálculos em prática e adicionar a luz do flash de acordo com isso:

Se eu quiser menos contraste, com a luz ambiente mais equilibrada, é só diminuir ainda mais a velocidade do obturador:

Obrigado aos 14 guerreiros que aguentaram até o final do curso, ao pessoal do IIF que deu show na produção, e aos nossos músicos/modelos Beatriz e Pedro.

Como fotografar uma banda (começando errado por uma idéia estúpida)

Eu e o Zoe Trio já estávamos conversando sobre essas fotos há meses. Mas sabe como é, "vamos fazer", "sim, vamos marcar", "então, vamos acertar a data para as fotos", "é, vamos fazer as fotos" e as agendas nunca batiam. Todo mundo já passou por isso, né? Essa semana demos um basta na lenga lenga e finalmente conseguimos nos encontrar.

Eu já mostrei alguns esquemas de iluminação com observações e anotações, mas hoje eu quero mostrar algo diferente. Aí vão as folhas de contato de toda essa sessão, que durou pouco mais de meia hora, antes de um show da banda. Isso aí é como se fosse a foto final na praia, mostrando suas celulites e jogando um volei enquanto a gordura balança. Só que é uma praia de nudismo, pra piorar. Absolutamente todos os cliques estão aí, exceto os do show. A ideia inicial era fazer as fotos nas cadeiras da sala onde a banda ia se apresentar. Me deram 10 minutos depois da passagem de som para fazer as fotos dentro do teatro, e fomos para o camarim. Chegando lá, vimos essa parede com assinaturas e mensagens de músicos que já tinham passado por ali e pareceu ser um lugar legal para fotos. Eu já estava medindo a luz ambiente para montar meu flash quando a mente abriu e pensei "não é porque eu trouxe essa tralha toda que eu sou obrigado a usar". As fotos foram feitas com a iluminação ambiente mesmo. Como o tempo era curto, dificilmente conseguiria uma boa expressão de todo mundo num único clique. Então, na edição escolhi 3 fotos onde cada um estivesse bem e mesclei no tratamento.

Depois, fazendo a edição do material, eu vi como foi idiota a ideia de fazer fotos de uma banda de post rock/jazz em cadeiras de teatro. Parecia mais foto para divulgação de show de stand up. Ainda bem que não insisti nessa ideia. Se você gosta de jazz, rock e post rock, não deixe de ouvir o som dos caras aqui.

O número guia e a "fitametria"

(artigo publicado originalmente no site Fotografia DG)

número guia (NG, ou GN, em inglês) é a chave para fitametrar corretamente. Não, não foi um erro de digitação. Vamos usar uma fita métrica e um pouquinho (não se assuste) de matemática para encontrar a exposição correta relacionando abertura do diafragma, ISO, potência do flash, e distância do flash em relação ao sujeito. Como faço para saber o número guia do meu flash? Fácil. Está no manual de instruções, nas especificações técnicas do equipamento. Normalmente os flashes trazem um número guia para o cálculo em metros, e outro para pés. Calcular a exposição também é simples.

Suponhamos que nosso flash imaginário, em determinada posição de zoom, ISO 100 e na carga máxima (1/1), tem um número guia 22 (métrico). Isso quer dizer que o flash tem um alcance de 22m, mas também quer dizer que para uma distância de 1m, em carga máxima (1/1), e ISO 100, a abertura do diafragma deverá ser f22 para se conseguir a exposição correta. Temos uma exposição satisfatória nessas condições, mas, e se quisermos uma abertura maior, ou aumentar a distância entre o flash e o sujeito da foto? Para isso precisamos nos lembrar de duas regras elementares na fotografia.

A primeira é a lei da reciprocidade. Sempre que eu abro um ponto na exposição, de f8 para f5.6, por exemplo, ou de 1/60 para 1/30, ou ainda no ISO (ex: de 100 para 200), o dobro de luz atinge nosso sensor. Da mesma forma, quando fechamos um ponto (imagine todos os exemplo citados, só que ao contrário. Quero evitar a fadiga de escrever tudo de novo), recebemos a metade da luz. Sempre que encontramos a exposição para uma cena e queremos alterar um dos valores, outro valor deverá ser alterado da mesma forma, para compensar. Exemplo: encontramos a exposição para ISO 100, 1/125 e f8. Se quisermos mais profundidade de campo e fecharmos o diafragma em um ponto, devemos compensar com um ponto no ISO, ou na pontência utilizada no flash (aqui suponho que você já leu os artigos do Vernaglia sobre fotometria e flash  e sabe que a velocidade influencia apenas na luz ambiente, e não na luz do flash).

Outro fundamento que devemos nos lembrar é a lei do inverso do quadrado da distância. É simplesmente o principio que rege o universo. Gravidade, ondas de rádio, radiação etc. Muita coisa no mundo (e fora dele) obedece o mesmo princípio de onde vem a lei. Para entendermos como isso se aplica à luz, vamos pensar de trás pra frente. Distância, quadrado, inverso. Exemplo: já achamos a exposição para 1m. Distância = 1; quadrado = 1²; inverso = 1/1². O resultado é 1. Temos exatamente a luz que queremos, sem perda. Mas se afastarmos o nosso flash para 2m, temos: distância = 2; quadrado = 2²; inverso = 1/2² = 1/4. Temos somente 1/4 da luz que encontramos anteriormente! A 3 metros, a mesma lógica: 3m; 3²; 1/9.

Voltando à nossa fitametria, jogando tudo no liquidificador e levando ao forno até dourar, chegamos à seguinte conclusão:

O número guia do nosso flash imaginário é 22, lembram? De novo, isso quer dizer que medindo exatamente 1m na nossa fita métrica, ISO 100 e carga máxima, o diafragma deve ser f22. Mas suponhamos que eu precise de mais espaço. Quero afastar meu flash para 2m. Sabemos que a 1m temos f22, e sabemos que afastando para 2m temos 1/4 da luz que tínhamos a 1m. Sabemos também que se abrirmos um ponto, o dobro da luz entra. Ora, ora, ora… Quer dizer então que, uma vez que encontramos a exposição para 1m, é só abrirmos 2 pontos para que o quádruplo de luz entre e, assim, chegamos à exposição para 2m? Exatamente! Se a 1m temos f22, a 2m teremos f11! Mas e se eu quiser f11 a 1m de distância? Moleza! Se a 2m perdi 1/4 de luz e compensei abrindo 2 pontos no diafragma, se voltarmos para 1m teremos o quadruplo de luz a f11, certo? Então que tal manter f11 a 1m e diminuir a potência do flash? de carga máxima, 1/1, para 1/4 de carga. Bingo! Temos exatamente a mesma exposição!

Mas o número guia do meu flash é 28 e a abertura mínima da minha lente é f22! Ai, meu Deus! Vou morrer!“. Para de drama. Perceba que fechando um ponto de f22 temos f32. E que sua câmera provavelmente trabalha em terços. f28 seria 2/3 de ponto, nesse caso. É só diminuir 2/3 na potência do seu flash e você encontra a mesma exposição para um flash de número guia 22 em carga máxima. Lembre-se: tudo está relacionado. ISO, abertura, potência do flash, e distância do flash em relação ao objeto fotografado. Quando encontramos a exposição que queremos e alteramos um deles, algum outro deve ser alterado para manter a mesma exposição.

Vamos à prática! Pegue sua câmera, seu flash, sua fita métrica e seu raciocínio rápido intergalático e teste todas as possibilidades, pensando nas duas leis fundamentais de que falamos.