Album Imaginário das Viagens Improváveis

A pergunta de hoje é da Bruna Silveira, que não é fotógrafa. É bacana poder falar um pouco dessas outras coisas, e não só de diafragma, ISO e velocidade do obturador. Estou torcendo por mais perguntas como essa!

Uma pergunta feita por uma pessoa que não entende nada da técnica mas é fascinada por arte de qualquer forma. Qual a ideia que você pretende transmitir com o ensaio "Álbum Imaginário das Viagens Improváveis"?

Eu nunca tinha mostrado esses outros ensaios na internet. Não achava que valesse a pena. A maior parte das pessoas tem referências diferentes, acaba gostando mais da foto bonita, nítida, técnica. Claro, esse é o tipo de foto que atinge um público maior e paga o aluguel no fim do mês, então estou sempre fazendo (tenho que garantir o miojo das crianças). Mas há algum tempo eu desenvolvo outras coisas em que a preocupação com foco, nitidez e exposição não é tanta. Aliás, um desses ensaios é baseado exatamente em falhas técnicas. O mais importante nesses casos é levantar uma questão, ou contar uma história.

No "Álbum Imaginário das Viagens Improváveis" eu viajo para diversos lugares do mundo, geralmente lugares não comuns, como Ilhas Antigua e Barbuda, Groelândia, Tonga, e até a pequena ilha entre Vladivostok e Alasca (lembram do tabuleiro de War?). Em cada um desses lugares eu conheço personagens interessantes e fatos sobre aquele lugar. O trabalho, na verdade, vai além das fotos. O mais importante são as histórias mesmo. Por isso a escolha de fotos desfocadas, cheias de ruído e muitas vezes subexpostas. Quem vê, precisa ouvir e acreditar nas histórias (que são, sim, reais).

Nenhuma dessas fotos tem manipulação digital além de um tratamento básico de contraste e saturação. Elas foram capturadas já da forma como você vê. Eu não queria que a técnica usada na captura acabe se tornando mais importante, então vou deixar pra lá, mas posso dizer que tem até papel higiênico no processo. A motivação do ensaio era tentar criar nessas histórias de viagens alguns elementos míticos básicos, como um exercício a partir do meu contato com as ideias do Joseph Campbell. Me obriga a pesquisar e aprender muito sobre lugares, pessoas, culturas, religiões e até meteorologia (as histórias da Antártida deram trabalho). Hoje, ainda existem mais imagens que histórias escritas, mas venho aos poucos trabalhando para chegar lá. Um dia, quem sabe não publico alguma coisa? Por enquanto, tudo pra mim é um grande exercício de criação que me dá muito prazer.

Esse ensaio rendeu uma participação em uma exposição coletiva durante a Semana Hercule Florence de Fotografia, em Campinas, com direito a um lendário (pelo menos pra mim) show do André Abujamra baseado nas histórias de algumas fotos. Cada vez mais gente doida de imaginação fértil tem se identificado de alguma forma com esse trabalho, então já fico feliz. Não precisa de likes no Facebook.

pergunte@leoneves.net