Cresce a taxa de desapego

O IBGE divulgou ontem pesquisa realizada com Leo Neves, recém ex empregado sindicalizado, constatando que o desapego cresceu 200% nos ultimos dias.

Não sei quantos de vocês sabem disso, mas eu estudei música durante algum tempo. Na verdade, se minha vida tivesse tomado outro rumo, hoje eu seria um músico de orquestra. Estudei fagote na adolescência com o mestre Noël Devos, um velhinho francês com cheiro de vovô e genialidade. Pelas circunstâncias tive que deixar o fagote, mas a música continuou comigo.

Estudava harmonia funcional e tinha me apaixonado por guitarras semi acústicas. Perdi as contas de quantas vezes eu visitei lojas de instrumentos para experimentar essas guitarras. Sonhava brincar de Joe Pass e me tornar uma lenda do jazz. O toque, o cheiro da madeira, o visual todo especial. Cara, como eu queria uma guitarra daquelas! Depois de muito trabalho e força de vontade pra juntar dinheiro, comprei minha primeira guitarra “séria”. Depois eu percebi que me faltaria a habilidade técnica necessária para me tornar uma lenda do jazz, mas isso é detalhe.

Então eu descobri a fotografia, e ela mudou toda a minha pirâmide de interesses. E, amigos, eu disse toda. Já não tocava guitarra, já não estudava mais música, já não frequentava lojas de instrumento. Se lia um livro, era sobre fotografia. Se fazia um curso, era de fotografia. A fotografia passou a ser a única coisa que me tirava de casa nos finais de semana. Nem trabalhava mais como antes. Quando você é apaixonado por uma pessoa, você quer passar mais tempo com ela, talvez ter uma família. Foi quando pedi a fotografia em casamento.

Quando você se casa, não continua na casa dos seus pais, com sua antiga família. Você vai começar a escrever outra história, a sua. E pra isso você precisa se desapegar das pessoas. Veja bem, não é que você não ame seus pais, seus irmãos. Você ainda tem muito carinho por eles, mas precisa se desapegar, deixar o mundo girar, sair de casa e viver a própria vida. Foi o que me aconteceu ontem, numa comparação boba. Aquela guitarra de que eu tanto gostava, com que eu tanto sonhei em outros tempos, que eu comprei com tanta dificuldade, se foi. Isso, pra mim, foi um marco do meu compromisso com a fotografia de agora em diante. É uma declaração de que meus interesses são exclusivamente dela. E isso faz bem.