Fotografia é um assunto tão abrangente, como ensinar?

Depois da loucura do Carnaval, voltamos à rotina. E, como prometido, sábado é dia de responder perguntas aqui no blog. Hoje a pergunta é do Renato Toso:

Eu gostaria de saber como você vê essa dificuldade de se ensinar fotografia, já que este é um tema que envolve muito mais do que técnica e coisas exatas, que vai muito além da teoria; e gostaria também de saber se você possui alguma saída para essas dificuldades. Você possui em mente um modelo de educação que abrangeria uma educação "perfeita", que abrangesse técnica, teoria, prática e criação? 
Minha pergunta se faz de tal maneira porque possuo conhecimento técnico, assim como você, e muitas vezes gostaria de passar isso aos outros. O conhecimento em fotografia é muito defasado no Brasil, mesmo que existam sites como o seu, como o fotografiaDG, Geraldo Garcia, etc. Entretanto, eu muitas vezes não vejo propósito. Em primeiro lugar porque me parece que muitas pessoas que trabalham com fotografia não tem o menor interesse em aprender sobre a mesma; segundo porque o assunto me parece demasiadamente amplo para fazer com que um lampejo de conhecimento se torne relevante para alguém; e em terceiro porque não identifiquei, ainda, uma maneira de transmitir, com categoria, todo o conhecimento que possuo.

Muito bacana sua pergunta, Renato! É um assunto de extrema importância, porque cursos, eventos, escolas e blogs de fotografia se multiplicam a cada dia, mas ainda nos falta transparência. Parece que boa parte de nós, fotógrafos, acabou assumindo algumas práticas baratas de marketing, prometendo fórmulas mágicas, milagres e verdades absolutas.

Para começar, não é verdade que o Brasil é carente em conhecimento sobre fotografia. Talvez seja um pouco "escondido", às vezes restrito a algumas regiões do país, quando se trata de cursos presenciais. Mas estamos, sim, discutindo fotografia como gente grande há muito tempo. O blog Icônica, escrito por pesquisadores da imagem, da fotografia e da comunicação sempre traz artigos interessantíssimos e muito relevantes. O MAM-SP lança ao longo do ano cursos a preços justos que estão além da técnica, onde o aluno pode conversar sobre fotografia com curadores, pesquisadores e fotógrafos. O Ateliê da Imagem, no Rio de Janeiro, tem um projeto chamado "Sexta Livre", onde qualquer pessoa interessada pode ir até lá e assistir uma palestra. Os SESC estão espalhados pelo país oferecendo cursos, oficinas e exposições. Enfim, o conhecimento está aí. Às vezes pode ser que ele não esteja ali na esquina, mas é só ter disposição e caminhar um pouquinho mais. Visitar os centros culturais da cidade é sempre uma boa pedida. A gente acaba descobrindo muita coisa interessante. É muito importante a gente não se fechar na internet, onde todo mundo pode ser o que quiser, e ir lá fora ver quem é quem de verdade.

E como eu resolvo a questão da dificuldade de falar sobre um assunto tão abrangente? Procurando ser realista, aceitando que é impossível oferecer um curso de um ou dois dias e ensinar tudo o que é importante, buscando sempre ser transparente e, acima de tudo, entendendo o meu lugar nesse mundo de opções. Existem cursos superiores de dois ou três anos em fotografia que deixam assuntos de fora do currículo. Imagine só, três anos ainda não é o suficiente para falar de tudo o que a fotografia oferece, o que eu posso fazer em poucos dias? Tento deixar claro exatamente o que o aluno deve esperar das minhas oficinas. Até escrevi recentemente um artigo sobre isso aqui no blog. Minha oficina de flash é só um ponto de partida. Existe muita, mas muita coisa além dela. Como costumo dizer, eu ensino o aluno a usar um martelo. Depois ele precisa aprender a usar as várias outras ferramentas de que uma marcenaria dispõe para construir uma mesa bonita, forte, prática e vendável, se for o caso. E nem deve ficar restrito às ferramentas da marcenaria! Vai precisar estudar design, arquitetura, administração etc. Qualquer curso que prometa ensinar tudo isso em um curto período de tempo é coisa de marketeiro oportunista, do tipo "fale inglês fluentemente em seis meses". A minha única preocupação é poder deitar minha cabeça no travesseiro e pensar que estou ensinando de forma realista e transparente um pequeno assunto da fotografia que domino e não estou enganando a ninguém. Para mim, esse é o modelo perfeito para qualquer curso, oficina ou escola: entregar o que promete com honestidade e uma linguagem acessível. E, claro, quem tem vontade de ensinar fotografia deve, em primeiro lugar, saber ensinar. 

Se você tem alguma dúvida, envie para pergunte@leoneves.net