Espontaneamente nada planejado

Acho que todos sabem que eu larguei um emprego fixo, seguro, com todos os direitos que as leis nos garante, para embarcar em um navio rumo ao Triângulo das Bermudas. Mas não é exatamente sobre isso que quero tratar. Ou é, de forma mais abrangente.

O ano era 2010. Sexta feira véspera de feriado prolongado no escritório. O tédio imperava e o spam pipocava no email. Um desses spams era sobre excelentes promoções de ultima hora  de uma companhia aérea, e eu resolvi dar uma olhada. Lá estava eu numa sexta feira comprando uma passagem aérea para o dia seguinte, sem nenhum planejamento.

Ao chegar à cidade eu não fazia ideia de como sair do aeroporto, nem tinha para onde ir. Mandei algumas mensagens pelo Couch Surfing, tentando ter um teto. Tudo deu certo, no final. Conheci pessoas das quais me lembrarei até que a idade leve a maioria das lembranças embora. Nada foi planejado e tinha tudo pra dar errado. Mas tive experiências que jamais teria se tivesse passado o feriado em casa. Provavelmente veria uns filmes e sujaria o sofá de molho de tomate.

No desembarque do vôo de volta, ao passar por aquelas esteiras de bagagem, um casal americano, de São Francisco, me abordou perguntando como fazer para chegar ao centro da cidade. Ele parecia um jogador de basquete. Negro, alto, magro, com pinta de rapper. Ela, loira, alta, com um ar meio hippie. Expliquei como fazer e perguntei se eles já tinham onde ficar. Disseram que ainda iam procurar um albergue. Não sei o que se passou na minha cabeça naquele momento, mas eu os convidei para ficar na minha casa. Nunca os tinha visto. Tinhamos conversado com eles por uns 10 minutos.

Hospedei os dois por uma semana. Muita conversa, muita troca de ideia, muito aprendizado de ambos os lados. Certamente entraram para o rol de pessoas mais legais que já passaram pela minha vida. Assim como todas as que eu conheci nesse tal feriado. Certeza que algumas delas me lêem agora. A conclusão é: a cada pequena decisão de fugir do óbvio, do esperado, a gente muda um pouco. E, dependendo da forma como encaramos a vida e nos relacionamos com as pessoas, mudamos para melhor.