A incrível e mágica luz do flash no modo desligado

Desde que o David Hobby virou uma super estrela na internet com o blog Strobist, muitos fotógrafos acabaram viciados em usar os flashes dedicados fora da câmera. Eu sei, já fui um desses. Em toda oportunidade de fazer um retrato, lá estava eu colocando meu flash em um tripezinho. Com menos de R$1 mil, um kit com tripé, flash e sombrinha já ajuda a diminuir o espaço entre o fotógrafo com baixo orçamento e os grandes e famosos da moda e do mercado publicitário.

Mãe iluminada pela luz do sol rebatida na casa amarela do vizinho.

Mas a coisa não é tão simples quanto parece. Existem vários flashes, vários acessórios, várias formas de iluminar, de se posicionar, potências, distâncias, regras, leis et muitos ceteras. Muita gente fica perdida no meio de tanta possibilidade, e não são só os iniciantes, já dei aula para excelentes profissionais que queriam deixar de levar tocha e gerador para todo lado. Por isso é tão comum vermos por aí workshops, cursos e material na internet, o interesse pelo assunto só cresce.

Josafá Ribeiro no segundo andar de uma antiga casa de shows com um buraco no telhado.

Se você está lendo este post, provavelmente chegou ao blog por causa das Oficinas de Flash, ou pelos esquemas de iluminação. Então, imagino que você seja um dos muitos interessados a usar os flashes dedicados. Antes de mim, uma infinidade de fotógrafos já compartilhava seus conhecimentos e com certeza não serei o último. Sempre tive uma resposta bastante positiva de quem acompanha o blog, e nunca poderia reclamar das oficinas. Já cruzei o país e conheci muita gente legal por causa delas. Além disso, a maior parte do meu trabalho é feito com os flashinhos, geralmente fora da câmera mesmo. Mas seria negligente não dizer que mergulhar nesse tipo de fotografia, e só nele, é um tiro no pé. Nessas andanças por aí já vi muitos fotógrafos que aprenderam a iluminar com um, dois, vinte flashes muito bem e produzem ótimas imagens, mas são incapazes de fazer o mais elementar na fotografia: aproveitar a luz ambiente. Muita gente acaba caindo nessa obsessão de tentar reproduzir a maioria das imagens que a gente vê em revistas e campanhas publicitárias, onde tudo é nítido e perfeito, com céu azul e pessoas sorridentes bem iluminadas. Mas essa obsessão limita, encaixota, amarra e impede que a gente pense de forma diferente e encontre outras soluções. Quando você menos espera, lá está você engessado, fazendo sempre o mesmo tipo de foto que alguém que você nem conhece ensinou em um blog. É importante, claro, saber como produzir uma boa imagem comercial se fotografia é o que paga suas contas. E tentar reproduzir as fotos de fotógrafos que você gosta é uma fase pela qual todo fotógrafo passa. Mas, como toda fase, deve ficar para trás. O próximo nível é poder decidir com firmeza os detalhes sobre seu próprio trabalho e não apenas reproduzir esquemas prontos.

Marina Rafainer no contraluz de uma janela.

Quero propor um exercício diferente para que você consiga dar um passo adiante na sua fotografia: dê um passo para trás. Volte para o início do jogo. Dizem que o primeiro passo para escrever bem é ser um bom leitor. E se fotografia é "escrever com a luz", as cores, as texturas e as sombras são as vírgulas, pontos e acentos. Detalhes importantes do texto que às vezes a gente usa de forma errada por não ler com atenção, e nossa dissertação acaba parecendo mais uma redação de escola. A gente precisa aprender a ler para fugir dessa! Primeiro, veja o trabalho de outros fotógrafos, mas procure fugir um pouco da internet. Veja bem, a internet é boa e está repleta de material legal, mas ela não é tudo. Vá a uma boa livraria e gaste um tempo na seção de fotografia (dica: Miguel Rio Branco, sem dúvidas um dos maiores fotógrafos do Brasil, lançou recentemente o livro "Você Está Feliz?". Dê uma olhada com calma nas imagens). Ao voltar para casa, abaixe sua câmera, desligue seu flash e observe com atenção todas as cores, texturas e sombras ao seu redor. Minha fotografia mudou quando comecei a fazer esse exercício diariamente, influenciando na forma como eu decido usar (ou não) o flash no meu trabalho. Leia tudo com cuidado e então fotografe o que achar interessante. Como eu já disse aqui em outros posts, não precisa sair jogando tudo nas redes sociais. Mas, se você quiser, compartilhe o resultado desse exercício aqui nos comentários. Toda boa história começa com um rascunho. Vamos compartilhar os nossos? Não é um concurso, ninguém vai malhar sua foto.

Aí vão alguns dos meus rascunhos que fiz logo antes de fazer as fotos que ilustram este post: