Nada de especial

Nossos avós foram criados para começar do zero. Eram pedreiros, açougueiros, padeiros, artesãos, muitos deles eram imigrantes europeus que vieram trabalhar nas fazendas, outros eram filhos ou netos de escravos, ou pequenos produtores rurais. Eles não eram especiais, únicos. Eram exatamente iguais a todos de sua comunidade. Nossos avós eram orientados à execução de tarefas, à repetição, à produção, à guerra. Vestiam fardas, uniformes nas fábricas, ou roupas surradas quase idênticas umas às outras nas construções.

Já nossos pais foram criados para ter estabilidade financeira, uma família, segurança, emprego. Foram criados para ter sucesso na vida. Mas continuavam iguais, olhando de longe. Poucos se destacavam, e esses eram invejados. Eram especiais, únicos. E nossos pais queriam que seus filhos fossem exatamente como esses bem sucedidos. Acabaram inventando uma mentira que pode nos destruir: “você é especial, único, nasceu para brilhar”.

O problema é que todos são especiais e estão destinados ao sucesso. Mas sabemos que isso é uma mentira. Crescemos esperando em vão o dia em que vamos receber os louros dessa nossa aura vencedora. Mas que surpresa! Um belo dia acordamos e percebemos que não existe nada de especial em nós. E agora? Precisamos ter um blog, precisamos ter seguidores, precisamos ter uma rede de contatos invejável, numa tentativa frustrada de parecermos especiais, ou pelo menos nos sentirmos especiais. Saltamos de emprego para emprego buscando algo que nem sabemos o que é, e às vezes trocamos até dinheiro por títulos e cargos. Na universidade, mudamos de curso nos últimos semestres. Não conseguimos manter relacionamentos, porque sempre existe a possibilidade de alguém melhor, mais único. Nem o canal da TV conseguimos deixar por mais de 10 minutos. Sempre estamos esperando que o smartphone vibre com aquela mensagem especial. Se a lasanha deve ficar 15min. no microondas, comemos fria, porque deixamos 10.

Chegou a hora de aprendermos com nossos avós. Executarmos as tarefas. Sermos quem nós precisamos ser, e não quem queremos ser por puro capricho. Isso não quer dizer que temos que ser açougueiros. Mas se por acaso a vida nos levar para um açougue, devemos afiar nossas facas e executar a tarefa, até que ela nos leve pra outro lugar, se levar.

No final das contas, nesse mundo onde todo mundo é único, dorme tranquilo quem vive ao lado gente pra ser igual.