O real valor de uma foto

O ano vai acabando e a gente vai fazendo aquele inevitável balanço geral. Pensando em como foi o meu ano, me deparei com uma história aqui no blog que merece ser publicada novamente, acredito. Até esse dia eu pensava que uma foto valiosa era aquela publicada em um veículo de imprensa importante, ou impressa em um papel alemão e pendurada na parede de uma galeria de arte com uma moldura bem cara. Jamais imaginaria que as fotos mais valiosas que eu faria seriam vistas por meia dúzia de pessoas, nunca seriam veiculadas em revistas de grande circulação, e eu não receberia um centavo por elas.

Fui convidado pelo Projeto Retrato Social, de João Pessoa - PB, para ministrar uma oficina para os voluntários e acompanhar uma de suas ações. O projeto usa a fotografia como um catalisador de transformação social, levando cursos de fotografia para comunidades carentes e realizando algumas ações para melhoria da autoestima dessas pessoas.

Fomos fotografar as meninas acolhidas em uma casa de recuperação de menores infratores. Nunca tinha participado de algo desse tipo e confesso que estava um pouco nervoso. As meninas foram liberadas para nos encontrar no pátio e começamos a conversar com elas, buscando uma conexão, tentando fazer com que elas ficassem mais à vontade (na verdade, elas é que tiveram que me deixar à vontade). Era impressionante a reação de algumas quando eu dizia que eu vivia de tirar fotos. Era como se aquilo fosse inacreditável, impossível. Elas se interessavam, perguntavam se qualquer um poderia se tornar fotógrafo. No fundo, queriam saber se essa poderia ser uma opção de viver dignamente quando saíssem dali. Elas só queriam uma alternativa com uma pitadinha de esperança.

Começamos a fotografar as meninas já maquiadas e os sorrisos eram mais do que espontâneos. Obviamente elas não tinham câmeras na casa. Muitas ali nunca tiveram um retrato impresso, nunca tinham se visto daquela maneira. Ficavam alguns minutos olhando aquele pedaço de papel, com um sorriso no rosto, e depois vinham contar pra quem enviariam as fotos. Mães, irmãos, maridos, filhos, cada uma tinha uma pessoa em mente. Foi aí que eu percebi que essas eram as fotos mais valiosas que eu poderia fazer. Simples, sem grandes produções, sem orçamentos espaciais, sem conceitos profundos e filosóficos, impressas em papel fotográfico barato.

Eu sei que soa um pouco infantil, mas parece mesmo que uma foto pode trazer algum tipo de consciência de ser, uma prova de existência, alguma coisa do tipo. Para aquelas meninas, aquele dia não foi um dia qualquer. Foi o dia em que elas foram fotografadas. Foi o dia em que elas conseguiram uma evidência material de quem eram, e poderiam provar para suas famílias (e principalmente para si mesmas) que ainda existiam e que, apesar daquela condição, consequência de más escolhas, ainda eram só meninas.