Pé na tábua? Não, obrigado.

A gente tem uma relação tão estranha com o tempo. Hoje, tudo é pra ontem. A gente quer só o que é bom, rápido e, sempre que possível, de graça. Todo mês novos eletrônicos chegam para transformar os da semana passada "coisa velha". E a gente vai se acostumando a esse nosso tempo maluco, ou melhor, a essa nossa relação maluca com o tempo.

Vamos supor que algum cliente te proponha um único trabalho que duraria 10 anos (pense bem, se você tem 30 anos, vai terminar o projeto aos 40). Você consegue se imaginar aceitando um trabalho desses? Eu não estou falando de marketing. Não é construir uma relação com um cliente que passa a confiar em você e te passar trabalhos ao longo de 10 anos, nem de um contrato que te garanta trabalho todos os dias por 10 anos. Não. Falo de um único trabalho, um único projeto. Eu não aceitaria, provavelmente. Tenho certeza de que a grande maioria de vocês aí do outro lado também não. Sejamos honestos, na maior parte das vezes a gente quer apertar um botão mágico e se ver livre do cliente o mais rápido possível. Não precisa ter medo de assumir, porque do outro lado os clientes também querem que a gente entregue exatamente do jeito que eles tem concebido na imaginação no prazo mais curto que um ser humano (não) consegue entregar.

Retábulo de Gent aberto - A Adoração do Cordeiro Místico

Jan Van Eyck, mestre dos detalhes quase imperceptíveis, é um artista do renascimento dos países do norte da Europa (mais especificamente, da região onde hoje é a Bélgica). Só com uma lente de aumento era possível enxergar certos detalhes em seus quadros. Ele vivia no sec. XV, um tempo em que o Instagram não existia e tudo era mais devagar. Uma de suas maiores obras levou cerca de 10 anos para ser finalizada. É conhecida como "A Adoração do Cordeiro Místico", um retábulo que se encontra hoje exposto na igreja de São Bavo, na cidade de Gent, na Bélgica. Para citar apenas algumas curiosidades:

Detalhe do coral de anjos na parte superior esquerda

- Um botânico é capaz de identificar mais de 40 espécies de plantas diferentes.

- Todos os rostos são únicos. O próprio Van Eyck aparece no meio do povo, inclusive.

- É possível contar fios de cabelo.

- Todos os personagens reais são representadas exatamente como são, inclusive rugas e imperfeições da pele.

Os detalhes são incontáveis. Existem livros dedicados exclusivamente à análise dessa pintura. Agora tente se imaginar começando a pintar algo desse tipo. Imagine o primeiro minuto desses 10 anos. Deve ter sido assustador. Uma área branca gigantesca diante de você e a responsabilidade de pintar algo memorável caindo sobre os seus ombros. Mas para a maioria de nós aqui em 2013 um trabalho tão personalizado, tão cheio de detalhes, soa tão fora da realidade que é difícil imaginar. Assim a gente vai vivendo: rápido e padronizado, cada vez mais colocando relações cheias de segundas intenções antes das experiências pessoais. A gente prefere a praticidade. A gente faz "networking". Tempo, é melhor gastar com alguma coisa que vai trazer algum retorno financeiro (ou prestígio profissional) do que perder com bobagens. E nessa maluquice toda a gente deixa de ter algumas vivências interessantes.

Se posso deixar uma sugestão, procure uma outra relação com o tempo, mais lenta e íntima. Deixe o microondas de lado e cozinhe no fogão. Faça menos coisas. Fotografe com filme. Tire pelo menos um dia na sua semana para desligar o celular, andar devagar, e escrever em um caderno (daqueles com folhas de papel, lembra?). Se você mora em uma cidade grande, ande pelo Centro, olhe para cima e descubra a história de pelo menos um prédio. Não precisa abandonar a vida corrida deste século e ir morar em uma fazenda de tomates, mas faça diferente de vez em quando, como um exercício. Principalmente: não tenha pressa com a sua fotografia. Fotografe mais, mostre menos, imprima as que você mais gosta. Não fique preocupado em se tornar o novo Bresson da noite para o dia. O mundo nem precisa de um novo Bresson. Dê um passo de cada vez.