Qualquer um compra uma câmera e se acha fotógrafo. Que bom! Recomendo.

Meu tio bancáro e eu

Meu tio bancáro e eu

Quem me ensinou a fotografar foi um bancário que se achava fotógrafo. Seu assunto era basicamente a própria família, mas até fotografava alguns casamentos pra levantar uma graninha extra. Ele me levava para fotografar pela cidade e eu me lembro que a gente anotava as configurações da câmera para analisar depois. Passávamos horas vendo fotos em um antigo projetor de slides, daqueles de carrossel, que faziam barulho passando de uma foto pra outra. Com ele, tive meu primeiro contato com uma SLR e comecei a aprender a técnica. Era um dos tios mais divertidos que eu tinha. Fazia mágica, bolas de sabão gigantescas, organizava suas coisas por dia de semana em gavetas com nomes de agente secreto, contava histórias fantásticas, e tirava fotos.

Nicolas Born, o engenheiro de TI, e as montanhas dos Doze Apótolos, na África do Sul.

Nicolas Born, o engenheiro de TI, e as montanhas dos Doze Apótolos, na África do Sul.

Acabei abandonando a velha Zenit que ele me deu por motivos que nem eu mesmo sei dizer. Por anos nem câmera de celular eu usei. Simplesmente abandonei a prática fotográfica. Até que em uma viagem fiz algumas fotos com uma DSLR de um engenheiro de TI que se achava fotógrafo. Era como se meu tio estivesse ali comigo. Mexer nos controles de obturador e diafragma, fazer o foco, o barulho do clique... Voltei dessa viagem decidido a tirar a poeira da minha velha russa. E foi o que eu fiz.

Pouco tempo depois, meu tio faleceu e deixou uma pequena quantia em dinheiro. Comprar minha primeira DSLR seria o destino perfeito para essa herança, como se fosse uma homenagem. Nessa época as DSLR eram muito caras no Brasil, e todas estavam bem fora do meu orçamento. Foi quando apareceu um amigo economista que se achava fotógrafo que estava prestes a fazer uma viagem para o exterior. Ele me propôs que eu comprasse sua câmera pelo preço de uma nova nos Estados Unidos. A diferença de preço era absurda e, agora, já cabia no orçamento. Consegui minha primeira DSLR.

Agora eu era um perdido na vida que me achava fotógrafo. Eu não conseguia parar em nenhum emprego. Tinha sérios problemas com autoridade e nada era bom o suficiente pra mim. Mas, parece que fotografar é meio terapeutico. Estou longe de ser um psicólogo (que se acha fotógrafo), mas eu atribuo várias mudanças positivas na minha vida à prática da fotografia. Consegui parar por mais de seis meses em um emprego e até fui promovido duas vezes (depois acabei chutando tudo pro alto para ser fotógrafo em tempo integral, mas essa é uma outra história)! Minha autoestima era outra. Aliás, minha autoestima passou a existir. Um mundo de possibilidades se abria na minha frente. Desde então fui a lugares e conheci pessoas que eu nunca imaginei conhecer.

Eu não quero soar como um desses pregadores ex-satanistas que agora encontrou a Jesus. O que eu quero dizer com isso tudo é: gente que se achava fotógrafo foi de uma importância inexplicável para que eu começasse a fotografar, e fotografar foi de uma importância inexplicável para que eu tomasse um rumo na vida. É tanto fotógrafo reclamando hoje em dia: "Agora todo mundo tem uma câmera e se acha fotógrafo!", "Qualquer pessoa que tem Instagram no celular sai por aí fotografando!", entre outras ladainhas que a gente já está cansado de ouvir/ler por aí. Eu gostaria que todo mundo pudesse ter uma câmera. Uma câmera não é só um aparelho eletrônico, ou instrumento de trabalho. Uma câmera é uma terapia. Uma câmera é um mediador entre uma pessoa e um mundo de detalhes, descobertas, observações, relacionamentos, confiança e autoestima. Eu gostaria que todo mundo pudesse ter a oportunidade de se achar fotógrafo.

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