Tico, Teco, e a criatividade que todo mundo tem

Dentro da nossa cabeça existe uma fábrica com dois caras que foram feitos para trabalhar em equipe. Cada um tem um papel bem definido na produção e organização das ideias que a gente tem todo santo dia. Não ter consciência da função que cada um desenvolve causa uma bagunça danada no processo. Não sei você, mas eu já deixei muitas ideias presas no imaginário, morrendo de medo de trazê-las para a realidade. A realidade, a gente sabe, muitas vezes é dura, imprevisível e exigente. Uma droga. Entender o papel desses dois caras pode ajudar a gente a perder o medo de realizar.

Tico é o cara que produz as ideias. Todos os dias ele junta tudo o que você já viu, ouviu, tocou e sentiu, todas as suas percepções, e o produto disso é uma nova ideia. Tico é um matemático, trabalha com infinitas combinações de referências o dia inteiro, até mesmo quando a gente está dormindo. É o cara do fundo do escritório, que mexe nas caixas do almoxarifado buscando referências antigas para combinar com as recentes, montando quebracabeças de imagens, histórias, cheiros, sons, e tudo mais.

O outro cara, o Teco, é o controle de qualidade. Ele analisa tudo o que o Tico produziu e, usando seu excelente senso estético, edita todo esse material para chegar a um produto final mais refinado. Teco é um artista. Transforma o material bruto do Tico em coisas interessantíssimas. Mas o Teco costuma ser um imbecil egocêntrico que acha que o mundo gira ao redor de seu umbigo. Pior: ele acha que é chefe do Tico. Está sempre na linha de produção tentando aplicar suas regras, eliminando várias combinações de referências antes mesmo que o Tico termine de montar as peças.

Cabe ao chefe (eu e você) do Tico e do Teco, colocar ordem na casa. Quando o Tico é livre para produzir, Teco tem mais material para trabalhar. O resultado dessa divisão de funções definida é uma produção mais frequente e cada vez mais consistente. Eu tenho percebido produtos mais interessantes saindo da minha fábrica desde que descobri, há pouco tempo, que colocar o Teco em seu lugar dá resultado. Quando a gente deixa o Tico produzir, muita porcaria aparece. Mas, no meio disso tudo, surgem também aquelas coisas que fazem a gente dar um sorriso satisfeito. Agora eu deixo Tico fotografar, desenhar, cantar, construir instrumentos musicais, desconstruir câmeras fotográficas, escrever histórias das mais loucas, dar vida a personagens, inventar pratos na cozinha e criar fórmulas de refrigerantes que não existem, sem que o Teco dê um pio sequer na produção. Quando o Teco chega no escritório para trabalhar, ele encontra uma lista enorme de produtos para editar, definir prioridades, arquivar o que for inviável e levar adiante o que for bom.

Sugiro que você tente fazer o exercício de deixar o seu Tico trabalhar com mais liberdade. Comece a escrever uma história, ou desenhar um barquinho no mar. Mas não deixe o Teco se meter. Não pare de produzir porque achou ruim, continue no próximo parágrafo. Primeiro você produz sem medo, sem preconceito, sem trava. Deixa para decidir depois se o que produziu é bom ou ruim. Não importa se você é fotógrafo, designer, ou advogado da vara trabalhista. Escreva, desenhe, componha, fotografe, crie. O primeiro produto é sempre bruto e meio estranho mesmo, mas não se deixe intimidar. E lembre-se: Tico e Teco trabalham, em primeiro lugar, para agradar a você. Produza para você ficar satisfeito. Nem tudo o que você faz precisa ir parar na internet para todo mundo ver.


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