TTL, por que não?

Como vocês já devem saber, TTL significa "through the lens", através da lente. O sistema de medição de luz da câmera é usado para calcular também quantidade necessária de luz do flash. Tudo o que você vê no visor da câmera é o que o TTL vai considerar. Esse modo de operação é muito usado por quem não tem tempo de ficar mergulhando em cálculos ou fazendo fotos de teste até chegar a uma exposição bacana. Em um evento, por exemplo, rapidez é essencial. O TTL se adequa a cada situação, compensando as variações de distância, abertura do diafragma, ISO etc. O i-TTL, na Nikon, e o ETTL, na Canon, dispara um flash antes da cortina abrir, o chamado pré flash, ajudando a fazer uma leitura ainda mais precisa.

Engraçado. Lendo esse primeiro parágrafo parece que o TTL é a solução dos problemas de qualquer fotógrafo que usa flash. E, em teoria, é. Mas quem nunca se esmurrou fazendo fotos sub e super expostas em TTL, que atire o primeiro sb-600. Ao mesmo tempo que compensar automaticamente qualquer variação na medição da luz é uma vantagem, pode quebrar nossas pernas em outras situações. Se você estiver fotografando um casamento no modo de medição matricial e, no exato momento da foto, passa aquele garçon maneiro com aquela camisa branca legal, já era. Por isso a gente faz tanta foto da mesma cena com exposições completamente diferentes. Muita coisa vai influenciar na leitura do TTL: modo de medição, composição, cores, e às vezes até a distância focal. Se a gente não souber exatamente onde está pisando, sai tudo uma porcaria. Aí a gente coloca a culpa da exposição errada no engenheiro eletrônico japonês que entrou pra faculdade aos 14 anos, tem 72 diplomas e até projetou aquele robô que um chimpanzé que se comunica por linguagem de sinais levou pra Marte. Detalhes como esse é que fazem gente que precisa de certa consistência nem pensar em usar o pobrezinho.

Eu trabalho com retratos. Revistas, assessorias de imprensa, retratos corporativos, essas coisas. Pra mim é muito importante conseguir a mesma luz em todas as fotos. Imagina se depois de fotografar 6 diretores de uma empresa cada um aparece com uma luz diferente? Por isso sempre fugi de tudo que é automático. Mas essa é uma de minhas perguntas favoritas na vida, e que dá título ao post: "Por que não?". Então, por que não usar o TTL? Por que ser um lunático megalomaníaco louco pelo controle e precisão do modo manual, morrendo de  medo de perder o poder para a anarquia panqueroque do TTL? Por que acreditar cegamente quando dizem coisas como "fotógrafo de verdade só fotógrafa no manual", "profissional só faz em RAW", e outras afirmações desse tipo? Muita gente pensa que não, mas é possível, sim, chegar a excelentes resultados usando o TTL. E digo mais: com precisão e consistência.

esquema oficina rio

Uma das formas pra gente conseguir isso é o travamento de exposição do flash. Na Canon é o chamado FEL (Flash Exposure Lock), e na Nikon é o FV Lock (Flash Value Lock). Nada mais é do que pegar uma referência de medição e dizer para o seu flash "Cara, é isso. Não sai daí. Quero que você jogue essa quantidade de luz". No caso da foto aí em cima eu queria que flash iluminasse o rosto da modelo (a aluna Renata Mazzini). Então me aproximei, coloquei o modo de medição em pontual, apontei para o rosto da Renata e apertei o botão de travamento da exposição. O flash disparou só para fazer aquela medição do TTL e entendeu que eu queria aquela luz nas próximas fotos, como se só existisse o rosto da Renata na cena. Com a exposição travada, mesmo enquadrando de forma diferente, colocando mais ambiente no quadro, ou me afastando, a luz continua igual. Se eu sentir que preciso de um pouco mais (ou menos) de luz, posso usar a compensação de exposição (aquele + ou - EV que você já deve ter visto por aí) e ainda fazer um ajuste fino dessa luz.

Para disparar o flash remoto usando o TTL, primeiro você precisa saber se sua câmera tem esse recurso. A maioria das Nikon fazem o disparo remoto, exceto as de entrada (D3000, D5000 etc). Nas Canon, os modelos mais recentes que tem o flash incorporado também podem fazer o disparo remoto (t3i, 60D e 7D). Se sua câmera não faz o disparo remoto, existem algumas opções de rádio TTL (que podem custar quase o valor de um novo flash, então talvez não seja bom negócio), ou você pode usar uma unidade de flash como "master", na sapata da câmera, e o segundo flash como "slave", remotamente. Além disso, existem os disparadores remotos das próprias marcas (que também não são baratos). Os Manuais da câmera e do flash são seus amigos. Passe um tempo com eles.

E dê uma chance ao TTL. Vai que você descobre que é um cara legal também, afinal...