O que o controle da sua TV tem a ver com flash remoto?

Na semana passada rolou uma oficina de flash avançado pelo Instituto Internacional de Fotografia (ou IIF, para os íntimos), em São Paulo. Um dos assunto dessa oficina foi o disparo remoto dos flashes dedicados. A minha forma predileta de disparar meus flashes remotamente é pelo CLS (Creative Lighting System) da Nikon. O flash remoto é disparado por um flash na câmera que envia um sinal infravermelho com várias informações. Eu controlo o flash remoto pelo flash mestre, podendo alterar potências, modos de operação (posso usar Manual, TTL ou Automático), e até disparar usando o sincronismo de alta velocidade (Auto FP, na Nikon). É o que carinhosamente chamo de "modo gordinho", porque nós, gordinhos preguiçosos, podemos fazer todos os ajustes sem sair do lugar, pela própria câmera, sem precisar caminhar até o flash. Quem usa Canon também pode usar o "modo gordinho", usando um 580EX II, ou um 600EX como mestre, por exemplo, ou o próprio flash pop up (no caso de algumas câmeras lançadas recentemente). 

O problema do "modo gordinho" é que ele funciona parecido com o controle da sua TV. Todo mundo um dia já tentou aumentar o volume e não conseguiu porque aquela caixa de pizza estava bloqueando o receptor do sinal do controle. Instintivamente a gente logo tenta levantar o braço e apontar o controle diretamente para a TV. Quando a gente trabalha com o flash remoto pelo sistema de infravermelho, o mesmo problema pode acontecer. Qualquer bloqueio impede que o sinal do flash mestre chegue no flash remoto. É possível driblar esse problema simplesmente apontando o sensor do flash remoto para o flash mestre, quando o ambiente permite isso. No caso do exemplo, esse bloqueio nada mais é do que uma grossa parede maciça de pedra. O meu flash está escondido por trás dessa parede, como poderia o sensor do flash remoto perceber o sinal do flash mestre? Qualquer tentativa de driblar a parede seria em vão. Lá vem o sistema de rádio para acabar com os nossos problemas! 

Usando um rádio simples tenho a limitação de não poder controlar a potência pela câmera, mas o bloqueio do sinal deixa de ser uma questão e eu posso esconder meu flash até mesmo atrás de uma parede. Alguns modelos de rádio permitem controle de potências e o uso do modo TTL. Geralmente são modelos mais caros que aqueles pequenos rádios baratinhos que todo mundo tem. Para os usuários de Canon, um 600EX RT como mestre (ou um transmissor STE3-RT) permite disparar outro 600EX RT remotamente também por rádio, e não só por infravermelho. Cuidado: muita gente acha que a Canon 5DmkIII vem com um "rádio embutido". Isso não é verdade. 

Oficina de Bolso - Rio de Janeiro

No dia 9 de março vai rolar uma versão curta da Oficina de Flash no Rio. Com foco na aplicação prática de alguns conceitos que são explicados com mais detalhes na versão completa da oficina, a Oficina de Bolso é uma opção mais objetiva.

Se você se interessou pelo programa dessa oficina, é só escolher uma das opções aqui embaixo para se inscrever.

Oficina de Flash em Recife

(Atenção: vagas esgotadas para a turma dos dias 11 e 12 de maio.)

Para dar início à agenda da Oficina de Flash em 2013, em maio vão rolar duas turmas para o pessoal do Recife. Assim, quem trabalha com eventos e não pode frequentar cursos aos finais de semana vai ter uma alternativa.

O programa do curso está na página da oficina. Se você gostou do programa e quer participar, é só clicar em uma das opções de pagamento logo aí embaixo. 

Fotografia é um assunto tão abrangente, como ensinar?

Depois da loucura do Carnaval, voltamos à rotina. E, como prometido, sábado é dia de responder perguntas aqui no blog. Hoje a pergunta é do Renato Toso:

Eu gostaria de saber como você vê essa dificuldade de se ensinar fotografia, já que este é um tema que envolve muito mais do que técnica e coisas exatas, que vai muito além da teoria; e gostaria também de saber se você possui alguma saída para essas dificuldades. Você possui em mente um modelo de educação que abrangeria uma educação "perfeita", que abrangesse técnica, teoria, prática e criação? 
Minha pergunta se faz de tal maneira porque possuo conhecimento técnico, assim como você, e muitas vezes gostaria de passar isso aos outros. O conhecimento em fotografia é muito defasado no Brasil, mesmo que existam sites como o seu, como o fotografiaDG, Geraldo Garcia, etc. Entretanto, eu muitas vezes não vejo propósito. Em primeiro lugar porque me parece que muitas pessoas que trabalham com fotografia não tem o menor interesse em aprender sobre a mesma; segundo porque o assunto me parece demasiadamente amplo para fazer com que um lampejo de conhecimento se torne relevante para alguém; e em terceiro porque não identifiquei, ainda, uma maneira de transmitir, com categoria, todo o conhecimento que possuo.

Muito bacana sua pergunta, Renato! É um assunto de extrema importância, porque cursos, eventos, escolas e blogs de fotografia se multiplicam a cada dia, mas ainda nos falta transparência. Parece que boa parte de nós, fotógrafos, acabou assumindo algumas práticas baratas de marketing, prometendo fórmulas mágicas, milagres e verdades absolutas.

Para começar, não é verdade que o Brasil é carente em conhecimento sobre fotografia. Talvez seja um pouco "escondido", às vezes restrito a algumas regiões do país, quando se trata de cursos presenciais. Mas estamos, sim, discutindo fotografia como gente grande há muito tempo. O blog Icônica, escrito por pesquisadores da imagem, da fotografia e da comunicação sempre traz artigos interessantíssimos e muito relevantes. O MAM-SP lança ao longo do ano cursos a preços justos que estão além da técnica, onde o aluno pode conversar sobre fotografia com curadores, pesquisadores e fotógrafos. O Ateliê da Imagem, no Rio de Janeiro, tem um projeto chamado "Sexta Livre", onde qualquer pessoa interessada pode ir até lá e assistir uma palestra. Os SESC estão espalhados pelo país oferecendo cursos, oficinas e exposições. Enfim, o conhecimento está aí. Às vezes pode ser que ele não esteja ali na esquina, mas é só ter disposição e caminhar um pouquinho mais. Visitar os centros culturais da cidade é sempre uma boa pedida. A gente acaba descobrindo muita coisa interessante. É muito importante a gente não se fechar na internet, onde todo mundo pode ser o que quiser, e ir lá fora ver quem é quem de verdade.

E como eu resolvo a questão da dificuldade de falar sobre um assunto tão abrangente? Procurando ser realista, aceitando que é impossível oferecer um curso de um ou dois dias e ensinar tudo o que é importante, buscando sempre ser transparente e, acima de tudo, entendendo o meu lugar nesse mundo de opções. Existem cursos superiores de dois ou três anos em fotografia que deixam assuntos de fora do currículo. Imagine só, três anos ainda não é o suficiente para falar de tudo o que a fotografia oferece, o que eu posso fazer em poucos dias? Tento deixar claro exatamente o que o aluno deve esperar das minhas oficinas. Até escrevi recentemente um artigo sobre isso aqui no blog. Minha oficina de flash é só um ponto de partida. Existe muita, mas muita coisa além dela. Como costumo dizer, eu ensino o aluno a usar um martelo. Depois ele precisa aprender a usar as várias outras ferramentas de que uma marcenaria dispõe para construir uma mesa bonita, forte, prática e vendável, se for o caso. E nem deve ficar restrito às ferramentas da marcenaria! Vai precisar estudar design, arquitetura, administração etc. Qualquer curso que prometa ensinar tudo isso em um curto período de tempo é coisa de marketeiro oportunista, do tipo "fale inglês fluentemente em seis meses". A minha única preocupação é poder deitar minha cabeça no travesseiro e pensar que estou ensinando de forma realista e transparente um pequeno assunto da fotografia que domino e não estou enganando a ninguém. Para mim, esse é o modelo perfeito para qualquer curso, oficina ou escola: entregar o que promete com honestidade e uma linguagem acessível. E, claro, quem tem vontade de ensinar fotografia deve, em primeiro lugar, saber ensinar. 

Se você tem alguma dúvida, envie para pergunte@leoneves.net 

Carnaval 2013 (e o tamanho ideal de câmera para ser considerado um fotógrafo de verdade)

No Carnaval deste ano eu não me retirei para as montanhas para meditar passando a mão na barba, como de costume. Fui convidado pela equipe do Google Brasil para participar de uma ação do Google+: a cobertura dos cinco dias de Carnaval em várias cidades do país. Fui para a rua e acompanhei sete blocos: Carmelitas, Céu na Terra, Sassaricando, Cordão do Boitatá, Cordão do Boi Tolo, Sargento Pimenta e Orquestra Voadora.

Algumas fotos da festa (mais nesse link):

(Se seu interesse é só ver as fotos do Carnaval, pare por aqui. Se quiser gastar mais um tempinho pensando, continue.)

Por se tratar de um trabalho que seria veiculado só na internet, em baixa resolução, fiz uma grande parte dessas fotos com uma câmera DSLR de entrada e lente do kit (uma Nikon D3000 com uma 18-55mm, que está à venda, inclusive. Interessados deixem um comentário) e percebi algumas coisas curiosas.

Em primeiro lugar, a resposta do público. Comigo estava um amigo que levava uma linda e grande Canon 5DmkIII e uma majestosa 70-200mm. Alguém com esse tipo de equipamento só pode ser um fotógrafo importante, então as pessoas posavam para ele felizes, fazendo festa. Comigo era um pouco diferente. Afinal, fotógrafo de verdade não usa câmera pequena, não é?

Depois de observar a resposta das pessoas em geral, vem os colegas de profissão. Encontrei muitos amigos trabalhando para veículos de imprensa, todos superequipados, claro. Mas eram muitos fotógrafos de imprensa e eu não conhecia todos ali. Um desses desconhecidos me pediu licença, como se eu estivesse atrapalhando, e argumentou "Eu estou trabalhando, amigo! Por favor!", como se eu fosse só um convidado enxerido com uma "câmera que troca lente". 

Por fim, decidi começar a levar minha câmera normal de trabalho, por dominar e confiar melhor nela, e percebi a mudança nas pessoas. Deixei de ser um metido com uma câmera no meio da multidão e passei a ser um fotógrafo. É interessante pensar no efeito que uma câmera faz nas pessoas. Hoje, existem câmeras compactas bem melhores que algumas DSLRs, sem falar no tal do "olhar" de cada fotógrafo, e mesmo assim o nosso juizo de quem é ou não um fotógrafo "de verdade" está diretamente relacionado ao tamanho e modelo da câmera que o sujeito carrega no pescoço. E quanto mais lentes e bolsas acolchoadas leva ao redor da cintura, mais fotógrafo se torna. Colete e chapéu caqui é um bônus, caso tenha. Culpa da publicidade das marcas,  da ingenuidade da gente aqui fora, ou um conjunto dos dois? Vai saber...

[atualização]

Talvez tenha me expressado mal. Não estou defendendo o uso de câmeras e lentes de  qualidade inferior. É preciso bom senso sempre. Em alguns casos você vai precisar, sim, de uma câmera fullframe (às vezes até médio formato digital) e lentes de qualidade superior. Mas são casos específicos, distante do dia a dia da maioria dos fotógrafos. A maior parte dos profissionais trabalham com pequenas impressões e internet. Ninguém precisa de uma Phase One de 60 megapixel para imprimir albuns pela internet para um cliente que só vai se importar em sair bem na foto. Nesse caso, usei uma câmera de entrada porque o produto final seriam fotos em baixa resolução para internet. Você precisa saber para quem está trabalhando e, principalmente, em que mídia vai parar o seu trabalho. Minha intenção não é levantar discussão sobre equipamento, mas colocar uma observação curiosa que eu fiz na rua, na hora do vamos ver. Bom senso, sempre! 

A incrível e mágica luz do flash no modo desligado

Desde que o David Hobby virou uma super estrela na internet com o blog Strobist, muitos fotógrafos acabaram viciados em usar os flashes dedicados fora da câmera. Eu sei, já fui um desses. Em toda oportunidade de fazer um retrato, lá estava eu colocando meu flash em um tripezinho. Com menos de R$1 mil, um kit com tripé, flash e sombrinha já ajuda a diminuir o espaço entre o fotógrafo com baixo orçamento e os grandes e famosos da moda e do mercado publicitário.

Mãe iluminada pela luz do sol rebatida na casa amarela do vizinho.

Mas a coisa não é tão simples quanto parece. Existem vários flashes, vários acessórios, várias formas de iluminar, de se posicionar, potências, distâncias, regras, leis et muitos ceteras. Muita gente fica perdida no meio de tanta possibilidade, e não são só os iniciantes, já dei aula para excelentes profissionais que queriam deixar de levar tocha e gerador para todo lado. Por isso é tão comum vermos por aí workshops, cursos e material na internet, o interesse pelo assunto só cresce.

Josafá Ribeiro no segundo andar de uma antiga casa de shows com um buraco no telhado.

Se você está lendo este post, provavelmente chegou ao blog por causa das Oficinas de Flash, ou pelos esquemas de iluminação. Então, imagino que você seja um dos muitos interessados a usar os flashes dedicados. Antes de mim, uma infinidade de fotógrafos já compartilhava seus conhecimentos e com certeza não serei o último. Sempre tive uma resposta bastante positiva de quem acompanha o blog, e nunca poderia reclamar das oficinas. Já cruzei o país e conheci muita gente legal por causa delas. Além disso, a maior parte do meu trabalho é feito com os flashinhos, geralmente fora da câmera mesmo. Mas seria negligente não dizer que mergulhar nesse tipo de fotografia, e só nele, é um tiro no pé. Nessas andanças por aí já vi muitos fotógrafos que aprenderam a iluminar com um, dois, vinte flashes muito bem e produzem ótimas imagens, mas são incapazes de fazer o mais elementar na fotografia: aproveitar a luz ambiente. Muita gente acaba caindo nessa obsessão de tentar reproduzir a maioria das imagens que a gente vê em revistas e campanhas publicitárias, onde tudo é nítido e perfeito, com céu azul e pessoas sorridentes bem iluminadas. Mas essa obsessão limita, encaixota, amarra e impede que a gente pense de forma diferente e encontre outras soluções. Quando você menos espera, lá está você engessado, fazendo sempre o mesmo tipo de foto que alguém que você nem conhece ensinou em um blog. É importante, claro, saber como produzir uma boa imagem comercial se fotografia é o que paga suas contas. E tentar reproduzir as fotos de fotógrafos que você gosta é uma fase pela qual todo fotógrafo passa. Mas, como toda fase, deve ficar para trás. O próximo nível é poder decidir com firmeza os detalhes sobre seu próprio trabalho e não apenas reproduzir esquemas prontos.

Marina Rafainer no contraluz de uma janela.

Quero propor um exercício diferente para que você consiga dar um passo adiante na sua fotografia: dê um passo para trás. Volte para o início do jogo. Dizem que o primeiro passo para escrever bem é ser um bom leitor. E se fotografia é "escrever com a luz", as cores, as texturas e as sombras são as vírgulas, pontos e acentos. Detalhes importantes do texto que às vezes a gente usa de forma errada por não ler com atenção, e nossa dissertação acaba parecendo mais uma redação de escola. A gente precisa aprender a ler para fugir dessa! Primeiro, veja o trabalho de outros fotógrafos, mas procure fugir um pouco da internet. Veja bem, a internet é boa e está repleta de material legal, mas ela não é tudo. Vá a uma boa livraria e gaste um tempo na seção de fotografia (dica: Miguel Rio Branco, sem dúvidas um dos maiores fotógrafos do Brasil, lançou recentemente o livro "Você Está Feliz?". Dê uma olhada com calma nas imagens). Ao voltar para casa, abaixe sua câmera, desligue seu flash e observe com atenção todas as cores, texturas e sombras ao seu redor. Minha fotografia mudou quando comecei a fazer esse exercício diariamente, influenciando na forma como eu decido usar (ou não) o flash no meu trabalho. Leia tudo com cuidado e então fotografe o que achar interessante. Como eu já disse aqui em outros posts, não precisa sair jogando tudo nas redes sociais. Mas, se você quiser, compartilhe o resultado desse exercício aqui nos comentários. Toda boa história começa com um rascunho. Vamos compartilhar os nossos? Não é um concurso, ninguém vai malhar sua foto.

Aí vão alguns dos meus rascunhos que acabaram resultando nos retratos que ilustram este post: